quarta-feira, 14 de outubro de 2009

DECADENTISMO E SIMBOLISMO

Quando o século XIX se aproximava de seu fim, uma sensação difusa de que as coisas estavam para acabar impulsionava o ser humano em direção a uma postura pessimista, justificada pelo agravamento dos problemas sociais desencadeados pela Revolução Industrial. As pessoas, durante meio século aproximadamente, conviveram com diferentes tendências de ver e interpretar o mundo em termos estéticos, sem que nenhuma dessas tendências tenha sido capaz de apresentar respostas satisfatórias para angústias de cunho individual ou para problemas de natureza coletiva.
Uma visão decadentista se propagava pela Europa. O artista, testemunha dessa tendência, isolava-se da sociedade, voltando-se para si mesmo, para impressões e intuições que refletiam o tédio e o marasmo provocados pelo mundo que o rodeava.
Historicamente, o movimento simbolista tem suas raízes profundas nos traços românticos que haviam permanecido subjacentes durante a escola realista, naturalista e parnasiana. Nascido na França, entre manifestações anti-realistas, o Simbolismo foi chamado de decadentismo ou decadismo. Esse nome traduz claramente a noção básica que orientava os seus seguidores: a de que a civilização burguesa chegara a tal ponto de decadência, de dissolução moral e espiritual, que a vida se transformara num grande mal-estar, suportável apenas pela fruição dos prazeres mais fortes, como os gozos sensuais. “A sociedade se desagrega sob a ação corrosiva de uma civilização deliqüescente. O homem moderno é um insensível” – afirma o Manifesto decadente.
Desprezando a ciência e a técnica como componentes desse mundo burguês, os simbolistas valorizam a intuição pessoal e a liberdade imaginativa como forma de conhecimento. Substituem a objetividade dos realistas e a impassibilidade dos parnasianos pela convicção de que o significado do mundo decorre da subjetividade que se possa dele apreender: aos indivíduos dotados superiormente cabe a revelação das misteriosas relações que configuram o universo. A poesia passa a ser considerada um esforço de captação e fixação das sutis sensações produzidas pela investigação do mundo interior. Despreza-se a realidade social imediata e produz-se uma arte introspectiva e aristocratizante – uma arte de nefelibatas que, em suas torres de marfim, criam símbolos poéticos das realidades profundas colocadas além da realidade aparente.
Assim, os poetas que, a princípio, adotaram as idéias de Baudelaire, Verlaine e Marllamé, como reação à poesia parnasiana, passaram a ser chamados de decadentes, ou ainda nefelibatas. O movimento adquiriu novas feições, acrescentando ao repúdio pelo mundo burguês uma atitude transcendente, em busca de realidades mais amplas do que aquela que a ciência e o Positivismo haviam revelado e proposto. O símbolo literário seria a forma de traduzir num corpo sensível as revelações desses mundos descobertos pelos artistas – daí a denominação simbolismo. Afinal, como dizia Baudelaire: “As imagens não são um ornamento poético, mas uma revelação da realidade profunda das coisas”.
Exploram-se as qualidades musicais da linguagem em vários níveis: no vocabulário, com a seleção e criação de palavras eufônicas; na combinação vocabular, com rimas internas e aliterações; na métrica e estrofação, com a liberdade rítmica vocabular, a combinação de versos e estrofes de diferentes medidas e feitios e o cuidado com as rimas originais. Procura-se sensibilizar o leitor pela exploração de recursos ligados a vários sentidos, despertando-lhe a apreensão sinestésica. O texto é oferecido como obra de significação aberta, cuja interpretação – quase nunca definitiva – depende de uma cuidadosa e sensível leitura.
Precursor desse estado de alma, o poeta Charles Baudelaire1 já traduzia, em As flores do mal, o estado de espírito finissecular que traria consigo o Simbolismo como uma nova proposta estética. Em poemas como Spleen, Baudelaire externa o sentimento de tédio existencial que encurrala o ser humano, tirando-lhe todas as perspectivas de vida, deixando-o sem esperanças e impedindo-o de vislumbrar uma saída para a situação em que se encontra:

Quando o céu baixo e hostil pesa como uma tampa
Sobre a alma que, gemendo. Ao tédio ainda resiste,
E do horizonte todo enleando a curva escampa,
Destila um dia escuro e mais que as noites tristes,

Quando a terra se torna em úmida enxovia
Onde a Esperança, como um morcego perdido,
Nos muros vai bater a asa tímida e fria
E a cabeça ferir no teto apodrecido;

Quando a visão. A escorrer suas cordas tamanhas,
De uma vasta prisão as grades delineia,
E a muda multidão das infames aranhas
No cérebro da gente estende a teia,

Sinos badalam, de repente, furibundos
E lançam contra o céu um rugido insolente,
Como espíritos que, sem pátria e vagabundos,
Começam a gemer recalcitrantemente. (FM, p. 88 )

As angústias do indivíduo perdido em meio à multidão também aparecem na lírica baudelairiana, traduzindo a impossibilidade de relações sólidas e duradouras. Tudo passava a ser visto como símbolo de uma essência distante e praticamente inacessível para o ser humano que, confuso, vagava à procura de sentido para a sua existência. Talvez, por isso, a chegada do final do século favorecia o desenvolvimento de uma visão decadentista, que resultaria em uma profunda insatisfação com as formas de manifestação estética em voga na Europa. De maneira geral, as pessoas mostravam-se descontentes com os aspectos positivistas e mecanicistas presentes no Parnasianismo e no Naturalismo. Era necessário encontrar uma nova forma de manifestar a visão de mundo que se constituía naquele momento de traços bastantes pessimistas.
E foi assim que aflorou a estética Simbolista como uma tentativa de representar, por meio da arte, a transcendência humana sobre os aspectos materiais. Oficialmente, o início do movimento Simbolista ocorreu em 1886, com a publicação, no jornal francês Le Figaro, de um manifesto do poeta Jean Moréas, que sugeria a troca do termo decadente por simbolismo. Nesse texto, Moreás prenunciava o surgimento de uma estética idealista e transcendente, que se oporia à rigidez formal do Parnasianismo, ao mesmo tempo que não incorreria nos exageros sentimentalistas do Romantismo. O desafio lançado para os escritores era um só: precisavam encontrar uma forma de expressar suas idéias e sentimentos por meio de símbolos.
O primeiro grande autor a vencer tal desafio foi o poeta Charles Baudelaire que, ao lado de Verlaine, Rimbaud e Marllamé, inscreveu o Simbolismo como um dos grandes momentos estéticos da literatura francesa.
Segundo Helena Parente Cunha:

Entre os precursores desta poética, o poeta francês Baudelaire quer dar uma imagem daquele mundo imaterial que a realidade fenomênica esconde, quer mostrar que o “visível”, por místicas “correspondências”, pode proporcionar-nos um esboço do “invisível”, isto é, a misteriosa unidade sob as aparências multiformes.( CL, p.157)

O soneto Correspondências, de Baudelaire, publicado em As flores do Mal, fala-nos de uma “floresta” de símbolos, das correspondências das imagens acústicas, visuais e olfativas, valorizando as sinestesias e a idéia de que com os símbolos poderíamos representar as coisas espirituais através das coisas concretas:

A natureza é um templo em que vivas pilastras
Deixam sair às vezes obscuras palavras;
O homem a percorre através de florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares

Como longos ecos que de longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.

Há perfumes saudáveis como carnes de crianças,
Doces como oboés, verdes como as campinas,
- E outros, corrompidos, ricos, triunfantes,

Tendo a efusão das coisas infinitas,
Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam os êxtases do espírito e dos sentidos. (FM, p. 19 )

Se observarmos a terceira estrofe, veremos que o pensamento de Baudelaire é de que as sensações não são meramente sensações, podem transmitir pensamentos de corrupção, riqueza ou triunfo. Já na primeira estrofe está a idéia de que os objetos também não são simplesmente objetos, mas símbolos de formas ideais ocultas por trás deles.
Outro poema significativo é Arte Poética, de Verlaine, escrito em 1874, no qual estão presentes novos elementos fundamentais da estética Simbolista, entre eles a música, a ambigüidade das palavras, a atmosfera de sonho, a luminosidade impressionista, a antieloqüência e a maneira vaga e imprecisa de expressar a realidade:

Antes de qualquer coisa, música
E para isso, prefere o Ímpar
Mais vago e mais solúvel no ar,
Sem nada que pese ou pouse.

É preciso também que não vás nunca
Escolher tuas palavras sem ambigüidade:
Nada mais caro que a canção cinzenta
Onde o Indeciso se junta ao Preciso.

São belos olhos atrás dos véus,
É o grande dia trêmulo de meio-dia,
É, através do céu morno de outono,
O azul desordenado das claras estrelas!

Porque nós ainda queremos o Matiz,
Nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O maiz único que liga
O sonho ao sonho e a flauta à trompa.

Foge para longe da Piada assassina,
Do Espírito cruel e do Riso impuro
Que fazem chorar os olhos do Azul
E todo esse alho de baixa cozinha!

Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começastes,
Em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?

Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
Nos forjou esta jóia barata
Que soa oca e falsa sob a lima?

Ainda e sempre, a música!
Que teu verso seja a coisa volátil
Que se sente fugir de uma alma em vôo
Para outros céus e para outras paixões.

Que teu verso seja o bom acontecimento
Esparso no vento crispado da manhã
Que vai florindo a hortelã e o timo...
E tudo o mais é só literatura. (CL, p. 158)

Como se vê, diante de um texto Simbolista não devemos procurar a mensagem. Rico em conotações, o texto Simbolista deve ser lido observando-se a musicalidade, as sugestões e o estado emotivo do poeta.

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